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terça-feira, 4 de outubro de 2011

doces renúncias...






















Dougal Waters



Visitador do meu seio
interior a mim
o júbilo
segura o olhar que vacila
na vastidão
dos tumultos

Inscrição de alegria
súbita flor
o vento descobre
entre as águas
ilumina meus passos
pela sombra larga
dos medos

pois o rio se recolhe
à humilde exultação
da fonte

e a flor se abandona
à véspera esplendorosa
do fruto


[a noite abre meus olhos - visitação]

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

atalhos






















Não constitui segredo
contam a sua história
mesmo se por atalhos
as coisas insignificantes de uma vida

assim o fragmento que reconheço
tanto tempo depois
escrito num caderno

“...reencontrarei ainda o vento dessa praia
de que me despeço
nos penhascos frente ao mar
o caminho abandonado...”

reencontrarei ainda
a expressão distraída que me deixava
a um passo daquilo que nem hoje sei?


[Baldios – José Tolentino Mendonça]

terça-feira, 16 de agosto de 2011

a desconcertante verdade do amor
























Djoe DeviantART


Nenhuma sombra ameaça tua porção de luz
ainda que solte o vento
medos antigos pelos atalhos

uma só palavra restituiu
a imensidão
o que nos teus olhos leio
quando entregas a uma desconhecida
a desconcertante verdade do amor...

sábado, 6 de agosto de 2011

o que se facilmente se perde:


















mymadeleine deviantART


Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que se facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo


Por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria


[a noite abre meus olhos - esplanadas]

sábado, 23 de julho de 2011

esse fundo de deserto
























miamojolene
deviantART



Nos dragoeiros bagas que ninguém esmaga
a morada as janelas os jardins
vagueiam abandonados

De repente ficamos tão sós
que pela solidão unicamente se conta
a nossa vida

Em qualquer parte buscamos um rastro ardente
pela menor fenda pode olhar-se a fonteira
e às vezes é aterrador
esse fundo de deserto


[a noite abre meus olhos - fronteira]

quarta-feira, 20 de julho de 2011

a perfeição ou a incerteza
















muratalper
deviantART



Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil

a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza

[A noite abre meus olhos - A rapariga de Providence]

domingo, 10 de julho de 2011

a curva sussurrante que não conseguimos























miamojolene
deviantART



Talvez o que mais intensamente buscamos
o larguemos em seguida
num alheamento maior do que é habitual
o amor, o fio de aço, a curva sussurrante
que não conseguimos

Poisamos furtivamente
no rebordo de outros mundos
em comovente descoberta
com milhões de pontos de fino borbado
que se movem e resvalam
indiferentes à crueldade



[a noite abre meus olhos - suite]

sábado, 9 de julho de 2011

diante da noite sem fim




























" First we fell, then we fall "
James Joyce

[...]

Aperto contra ti a infelicidade dos meus braços
a navalha não do jogo, mas do rito
Tu porém inacessível
ardes entre a dupla folha
de ouro



[a noite abre os meus olhos - Jacob e o Anjo]

domingo, 3 de julho de 2011

os incêndios




















djoe
deviantART





Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar


[a noite abre meus olhos]

quarta-feira, 15 de junho de 2011

o acaso diante de nós

























[...]
pensava se haveria no mundo
caminhos que nos conduzam

não chegava a conclusão
ou nem dava por ela
hesitante nessas moradas
de regras tão imprecisas

existe um momento
pouco importa qual
que se reúnem ao acaso
diante de nós
todas as condições de uma vida
desesperada


[baldios – moradas provisórias]

domingo, 5 de junho de 2011

ao nome breve que se guarda















sirbion

deviantART


A verdade é que não conseguia curar-se
de uma delicadeza infinita
senão consigo
ao menos para com o mundo
a glória desejava semelhante
no escuro e à luz dos campos
embora tanto se achasse incapaz

preferiu sempre a seta que desaparece
ao nome breve que se guarda


[baldios - seta]

quarta-feira, 1 de junho de 2011

contrastes























MojoFire

DeviantART



[...]
mas vive-se de um momento para outro
a imensidão flagrante dos contrastes
nomes imóveis, repletos
o desejo assinala

é assim que rodo
à volta de lugares desconhecidos
nenhum corte me doeu
nunca estive sozinha


[baldios - para um desenho de Ilda David']

quinta-feira, 26 de maio de 2011

desligada de motivos














Trace Legacy




Mantinha um fascínio indeciso

uma impressão capaz de proteger

tanto a ordem como a rebeldia

sozinha perante pedidos

agitações e escombros

desligada há muito de motivos



[baldios - simone weil]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

onde os outros triunfam





















Amosb
DeviantART




O que de sublime e doloroso o tempo guarda

precisava disso de maneira que até é difícil

porque se sentia só nos campos

onde os outros triunfam

descia o sombrio, o nocturno atalho



assim chegava cedo de mais à beira não do fim

mas do informulável

para quem as nossas pequenas imposturas

são uma perda, um delito, uma culpa


[baldios - o nocturno atalho]

terça-feira, 17 de maio de 2011

mas estamos tão pouco...





















m0thyyku

deviantART



Uma paisagem muito longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro

fechamos os olhos e sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer idéia extrema
que destrói o mundo e não queríamos

MAS ESTAMOS TÃO POUCO
ONDE ESTAMOS


[baldios - mercado velho, machico]

segunda-feira, 16 de maio de 2011

da verdade do amor
















Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor



[baldios]

demasiado perto

























Era alguém pronto a começar qualquer destino
palavra a palavra esquecia
histórias formas a natureza
e assim de novo se dispunha amá-las
com um amor tão grande
tão grande

a inocência da flecha que propaga
nos bosques o desconhecido
um corpo face ao extenso perigo
"só tenho medo se ficar por aqui
demasiado perto"

a glória, sabes, é uma dor
que por vezes
a doçura esconde


[baldios]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

num instante se tornam saberes


























admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
[...]

prezava apenas os segredos que mesmos ditos
permanecem como segredos

[...]

incapaz de certezas

o que mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia


[Baldios]