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domingo, 24 de julho de 2011

amor vencido...

























salihagir

deviantART



[...]
tu disseste
o nosso amor
foi desde de sempre um menino morto
só às vezes parecia
que ia viver
que nos venceria
mas nós dois fomos tão fortes
que o deixamos sem sangue
sem seu futuro
sem seu céu
um menino morto
só isto
maravilhoso e condenado
talvez tivesse um sorriso
como o teu
doce e fundo
talvez tivesse uma alma triste
como minh'alma
pouca coisa
talvez aprendesse com o tempo
a desdobrar-se
a usar o mundo
mas os meninos que assim vêm
mortos de amor
mortos de medo
têm tão grande o coração
que se destroem sem saber
tu disseste
o nosso amor
foi desde de sempre um menino morto
que verdade dura e sem sombra
que verdade fácil e que pena
eu imaginava que era um menino
e era somente um menino morto
agora o que falta
só falta
medir a fé e que lembremos
o que poderíamos ter sido
pra ele
que não pode ser nosso
o que mais
e quando chegue
um vinte três de abril e abismo
tu onde estejas
leva-lhes flores
que eu também irei contigo...


[o amor, as mulheres e a vida]

terça-feira, 3 de maio de 2011

me dás teu amanhecer



















[...]

me dás teu coração esse carrasco

e eu te dou minha calma essa mentira

tu o vôo dos teus olhos / eu minha raiz ao sol

tu a pele do teu tato / eu meu tato em tua pele



me dás teu amanhecer e eu te dou meu ângelus

tu me abres teus enigmas / eu te encerro em meu acaso

me expulsas do teu esquecimento / eu nunca te esqueci

vais vais vens / vou vou te espero.


[o amor, as mulheres e a vida – truque]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

enigmas



















scarabuss
deviantART



Todos temos um enigma
e como é lógico ignoramos
qual é sua chave seu sigilo
raspamos a proximidade
colecionamos os despojos
nos extraviamos nos ecos
e o perdemos no sonho
justo quando ia se decifrar

e tu também tens o teu
um enigma tão simples
que os postigos não o escondem
nem o descartam os presságios
está em teus olhos e os fechas
está em tuas mãos e as retiras
está em teus peitos e os cobres
está em meu enigma e o abandonas.

[o amor, as mulheres e a vida – enigmas]
.
.
.

terça-feira, 12 de abril de 2011

escombros e esquecimento


















[...]
tu não podias me ver porque montavam guarda
os rancores alheios
eu não podia te ver porque me ofuscava
o sol dos teus presságios

mesmo assim me perguntava constantemente
como serias na tua espera
se abriria por exemplo os braços
para abraçar a minha ausência

mas o muro caiu
foi caindo
ninguém soube o que fazer com os mal-entendidos
houve quem os juntou como relíquias

e de repente uma tarde
te vi sair de um buraco de névoa
e passar ao meu lado sem me chamar
nem me tocar nem me ver
e correr ao encontro de outro rosto
cheio de calma cotidiana

outro rosto que talvez ignorava
que entre ti e mim existia
tinha existido
um muro de berlim que ao nos separar
desesperadamente nos juntava
esse muro agora é só escombros
mais escombros
e esquecimento.

[o amor, as mulheres e a vida – epigrama com muro]
.
.
.

quinta-feira, 31 de março de 2011

da tua solidão





















kumi
yamashita




se tua bendita solidão
se funde com a minha
já não saberei se sou em ti
ou tu terminas sendo eu

qual das duas será
depois de tudo
minha solidão legítima?

sábado, 22 de janeiro de 2011

velhos sinais...


















Nas mãos trago
velhos sinais
são minhas mãos de agora
não as de antes

dou o que posso
e não tenho vergonha
do sentimento

se os sonos e sonhos
são como ritos
o primeiro que volta
sempre é o mesmo

vencendo muros
se elevam na tarde
teus pés despidos

o acaso nos oferece
sua via dupla
tu com tuas solidões
eu com as minhas

e de qualquer jeito
se vivo na tua memória
não estarei só

teus olhares insones
não se dão conta
de onde ficou tua lua
a dos olhos claros

me olha logo
antes que um descuido
me torne outro

não importa que a paisagem
mude ou se quebre
me basta com teus vales
e com tua boca

não me deslumbres
me basta com o céu
do costume

nas minhas mãos te trago
velhos sinais
são minhas mãos de agora
não as de antes

dou o que posso
e não tenho vergonha
do sentimento.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

o que virá depois da solidão?





















ThyMournia
DeviantART



Eles têm razão
essa felicidade
pelo menos maiúscula
................................................não existe
ah mas se existisse com minúscula
seria semelhante à nossa breve
......................................................pré-solidão

depois da alegria vem a solidão
depois da plenitude vem a solidão
depois do amor vem a solidão

já sei que é uma pobre deformação
mas o certo é que nesse durável minuto
a gente se sente
............................só no mundo
sem posses
sem pretextos
sem abraços
sem rancores
sem coisas que unem ou separam
e nesta única maneira de estar só
a gente sequer tem piedade de si mesmo

os dados objetivos são como segue
há dez centímetros de silêncio
.............entre tuas mãos e minhas mãos
uma fronteira de palavras não ditas
.............entre teus lábios e meus lábios
e algo que brilha um pouco triste
.............entre teus olhos e meus olhos

claro que a solidão não vem sozinha

se a gente olha por sobre o ombro seco
de nossas solidões
vê um longo e compacto impossível
um singelo respeito por terceiros ou quartos
esse percalço de ser boa gente

depois da alegria
depois da plenitude
depois do amor
............................vem a solidão

está certo
....................mas
o que virá depois
da solidão

às vezes me sinto
................................tão só
se imagino
ou melhor se sei
que além da minha solidão
..............................................e da tua
ainda estas aí
mesmo que se perguntando sozinha
o que virá depois
................................da solidão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

não te salves






















© Villi



Nouvelle Vague - Bizarre Love Triangle

Não fiques imóvel
na beira do caminho
não congeles o júbilo
não queiras com apatia
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te enchas de calma
não reserves do mundo
só um recanto tranquilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não durmas sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo

porém se
apesar de tudo
não podes evitar
e congelas o júbilo
e queres com apatia
e te salvas agora
e te enches de calma
e reservas do mundo
só um recanto tranquilo
e deixas cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
e te secas sem lábios
e adormeces sem sono
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e ficas imóvel
na beira do caminho
e te salvas
então
não fiques comigo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

pode algumas vezes entender o amor






















prunku.deviantart



Pete Yorn - Ez

Com esta solidão
ingrata
tranquila

com esta solidão
de sangrados achaques
de distantes uivos
de monstruoso silêncio
de lembranças em alerta
de lua congelada
de noites para outros
de olhos bem abertos

com esta solidão
desnecessária
vazia

se pode algumas vezes
entender
o amor.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

como dois gritos de assombro
























Vic4U.deviantart

Quem teria acreditado que se encontrava
só no olhar, oculto,
teu olhar.
Quem teria acreditado essa terrível
ocasião de nascer posta ao alcance
da minha sorte e dos meus olhos,
e que tu e eu iríamos, despojados
de todo o bem, de todo o mal, de tudo,
nos acorrentar no mesmo silêncio,
nos inclinar sobre a mesma fonte
para ver-nos e ver-nos
mutuamente espiados no fundo,
tremulando na água,
descobrindo, pretendendo encontrar
quem eras tu atrás desta cortina,
quem era eu atrás de mim.
E ainda não vimos nada.
Espero que alguém venha, inexorável,
sempre temo e espero,
e acabe por nos nomear um signo,
por nos situar em alguma estação
por nos deixar ali, como dois gritos
de assombro.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

como se fosse uma revelação

























é claro
você sorri
e não importa quão linda
ou quão feia
quão velha
ou quão jovem
quão muito
ou quão pouco
você realmente
seja

sorria
como se fosse
uma revelação
e o seu sorriso anula
todas as anteriores
caducam no momento
seus rostos como máscaras
seus olhos duros
frágeis
como espelhos ovais
sua boca de morder
seu queixo de capricho
suas bochechas perfumadas
suas pálpebras
seu medo

sorria
e você nasce
assume o mundo
olha
e ao olhar
indefesa
nua
transparente

e por aí
se o sorriso vem
de muito
muito dentro
você pode chorar
simplesmente
sem dilacerar-se
sem desesperar-se
sem convocar a morte
nem sentir-se vazia

chorar
só chorar
então seu sorriso
se ainda existe
se torna um arco-íris.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

à esquerda do carvalho





















© Khomenko



The Rolling Stones - Angie


Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas o Jardim Botânico é um parque adormecido
onde podemos nos sentir árvores ou gente
desde que se cumpra um requisito prévio.
Que a cidade exista tranquilamente longe.

[...]

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas o Jardim Botânico sempre teve
uma agradável propensão aos sonhos
a que os insetos subam pelas pernas
e a melancolia desça pelos braços
até que a gente fecha os punhos e a prende

Depois de tudo o segredo é olhar para cima
e ver como as nuvens disputam as copas
e ver como os ninhos disputam os pássaros.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
ah mas os casais que correm pro Botânico
quer desçam de um táxi, quer pousem de uma nuvem
falam normalmente de temas importantes
e se olham fanaticamente nos olhos
como se o amor fosse um brevíssimo túnel
e eles se contemplassem por dentro desse amor.

Aqueles dois por exemplo à esquerda do carvalho [...]
falam e pelo jeito as palavras
ficam comovidas a olhá-los
já que a mim não me chegam nem mesmo os ecos

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas é lindo imaginar o que dizem
ainda mais se ele morde um raminho
e ela deixa o sapato sobre a grama
ainda mais se ele tem os ossos tristes
e ela quer sorrir mas não consegue.

Para mim o rapaz está dizendo
o que se diz às vezes no Jardim Botânico

ontem chegou o outono
o sol de outono
e me senti feliz
como há muito
que linda estás
te quero
em meu sonho
de noite
se escutam as buzinas
o vento sobre o mar
e mesmo assim aquilo
também é o silêncio
me olha assim
te quero
eu trabalho com vontade
faço contas
fichas
e discuto com cretinos
me distraio e blasfemo
me dá a tua mão
agora
já sabes
te quero
penso às vezes em Deus
bem não tantas vezes
não gosto de roubar
seu tempo
e além do que está longe
tu estás ao meu lado
agora mesmo estou triste
estou triste e te quero
já passarão as horas
a rua como um rio
as árvores que ajudam
o céu
os amigos
e que sorte
te quero
há muito era criança
há muito e o que importa
o acaso era simples
como entrar nos teus olhos
me deixa entrar
te quero
ainda bem que te quero.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas pode acontecer de que de repente a gente sê de conta
que na verdade se trata de algo mais triste
um desses amores de tântalo e sorte
que Deus não admite porque tem ciúmes.

Reparem que ele confessa com ternura
e ela se apoia contra o tronco
reparem que ele vai desfiando lembranças
e ela aceita misteriosamente.

Para mim o rapaz está dizendo
o que se diz às vezes no Jardim Botânico

tu disseste
nosso amor
foi desde de sempre um menino morto
só às vezes parecia
que ia viver
que nos venceria
mas nós dois fomos tão fortes
que o deixamos sem seu sangue
sem seu futuro
sem seu céu
um menino morto
só isso
maravilhoso e condenado
talvez tivesse um sorriso
como o teu
doce e fundo
talvez tivesse uma alma triste
como minh'alma
pouca coisa
talvez aprendesse com o tempo
a desdobrar-se
a usar o mundo
mas os meninos que assim vêm
mortos de amor
mortos de medo
têm tão grande o coração
que se destroem sem saber
tu disseste
nosso amor
foi desde de sempre um menino morto
e que verdade dura e sem sombra
que verdade fácil e que pena
eu imaginava que era um menino
e era somente um menino morto
agora o que falta
só falta
medir a fé e que lembremos
o que poderíamos ter sido
para ele
que não pode ser nosso
o que mais
e quando chegue
um vinte três de abril e abismo
tu onde estejas
leva-lhes flores
que eu também irei contigo

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas o Jardim Botânico é um parque adormecido
que só se desperta com a chuva.

Agora a última nuvem resolveu ficar
e está nos molhando como a alegres mendigos.

O segredo está em correr com precauções
Para não matar nenhum besouro
E não pisar nos cogumelos que aproveitam
Para nascer desesperadamente.

Sem prevenções me viro e continuam
aqueles dois à esquerda do carvalho
eternos e escondidos na chuva
dizendo-se quem sabe que silêncios.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
mas quando a chuva cai sobre o Botânico
aqui ficam só os fantasmas.
Vocês podem ir.
Eu fico.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

sem sua vida...

podes querer a aurora

























larafairie.deviantart


Podes querer a aurora
quando ames.
Podes
vir e reclamar-te como eras.
Conservei intacta tua paisagem.
A deixarei em tuas mãos
quando estas cheguem, como sempre,
anunciando-te.
Podes
vir a reclamar-te como eras.
Mesmo que já não sejas tu.
Mesmo que minha voz te espere
sozinha em seu acaso
queimando
e teu sonho seja isso e muito mais.
Podes amar a aurora
quando queiras.
Minha solidão aprendeu a ostentar-te.
Esta noite, outra noite
tu estarás
e voltará a gemer o tempo giratório
e os lábios dirão
esta paz agora esta paz agora.
Agora podes vir a reclamar-te,
penetrar em teu lençóis de alegre angústia,
reconhecer teu quente coração sem desculpas,
os quadros persuadidos,
saber-te aqui.
Haverá para viver qualquer fuga
e o momento da espuma e do sol
que aqui permaneceram.
Haverá para aprender outra piedade
e o momento do sonho e do amor
que aqui permaneceram.
Esta noite, outra noite
tu estarás,
cálida estarás ao alcance dos meus olhos,
longe já da ausência que não nos pertence.
Conservei intacta tua paisagem
mas não sei até onde está intacta sem ti,
sem que tu lhe prometas horizontes de névoa,
sem que tu reclames sua janela de areia.
Podes querer a aurora quando ames.
Deves vir a reclamar-te como eras.
Mesmo que já não sejas tu,
Mesmo que contigo tragas
dor e outros milagres.
Mesmo que sejas outro rosto
do teu céu para mim.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

até ser somente voz e rumor de sorriso


















© Julia Iwo



Temos chegado ao crepúsculo neutro
onde o dia e a noite se fundem e se igualam.
Ninguém poderá esquecer este descanso.
Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil
a deixar-me os olhos vazios de cidade.
Não penses agora no tempo de espinhos,
no tempo de pobres desesperos.
Agora só existe o desejo nu,
o sol que se desprende de suas nuvens de pranto,
seu rosto que se interna noite adentro
até ser somente voz e rumor de sorriso.

troca