[...] tu disseste o nosso amor foi desde de sempre um menino morto só às vezes parecia que ia viver que nos venceria mas nós dois fomos tão fortes que o deixamos sem sangue sem seu futuro sem seu céu um menino morto só isto maravilhoso e condenado talvez tivesse um sorriso como o teu doce e fundo talvez tivesse uma alma triste como minh'alma pouca coisa talvez aprendesse com o tempo a desdobrar-se a usar o mundo mas os meninos que assim vêm mortos de amor mortos de medo têm tão grande o coração que se destroem sem saber tu disseste o nosso amor foi desde de sempre um menino morto que verdade dura e sem sombra que verdade fácil e que pena eu imaginava que era um menino e era somente um menino morto agora o que falta só falta medir a fé e que lembremos o que poderíamos ter sido pra ele que não pode ser nosso o que mais e quando chegue um vinte três de abril e abismo tu onde estejas leva-lhes flores que eu também irei contigo...
Todos temos um enigma e como é lógico ignoramos qual é sua chave seu sigilo raspamos a proximidade colecionamos os despojos nos extraviamos nos ecos e o perdemos no sonho justo quando ia se decifrar
e tu também tens o teu um enigma tão simples que os postigos não o escondem nem o descartam os presságios está em teus olhos e os fechas está em tuas mãos e as retiras está em teus peitos e os cobres está em meu enigma e o abandonas.
[...] tu não podias me ver porque montavam guarda os rancores alheios eu não podia te ver porque me ofuscava o sol dos teus presságios
mesmo assim me perguntava constantemente como serias na tua espera se abriria por exemplo os braços para abraçar a minha ausência
mas o muro caiu foi caindo ninguém soube o que fazer com os mal-entendidos houve quem os juntou como relíquias
e de repente uma tarde te vi sair de um buraco de névoa e passar ao meu lado sem me chamar nem me tocar nem me ver e correr ao encontro de outro rosto cheio de calma cotidiana
outro rosto que talvez ignorava que entre ti e mim existia tinha existido um muro de berlim que ao nos separar desesperadamente nos juntava esse muro agora é só escombros mais escombros e esquecimento.
[o amor, as mulheres e a vida – epigrama com muro] . . .
Eles têm razão essa felicidade pelo menos maiúscula ................................................não existe ah mas se existisse com minúscula seria semelhante à nossa breve ......................................................pré-solidão
depois da alegria vem a solidão depois da plenitude vem a solidão depois do amor vem a solidão
já sei que é uma pobre deformação mas o certo é que nesse durável minuto a gente se sente ............................só no mundo sem posses sem pretextos sem abraços sem rancores sem coisas que unem ou separam e nesta única maneira de estar só a gente sequer tem piedade de si mesmo
os dados objetivos são como segue há dez centímetros de silêncio .............entre tuas mãos e minhas mãos uma fronteira de palavras não ditas .............entre teus lábios e meus lábios e algo que brilha um pouco triste .............entre teus olhos e meus olhos
claro que a solidão não vem sozinha
se a gente olha por sobre o ombro seco de nossas solidões vê um longo e compacto impossível um singelo respeito por terceiros ou quartos esse percalço de ser boa gente
depois da alegria depois da plenitude depois do amor ............................vem a solidão
está certo ....................mas o que virá depois da solidão
às vezes me sinto ................................tão só se imagino ou melhor se sei que além da minha solidão ..............................................e da tua ainda estas aí mesmo que se perguntando sozinha o que virá depois ................................da solidão.
Não fiques imóvel na beira do caminho não congeles o júbilo não queiras com apatia não te salves agora nem nunca não te salves não te enchas de calma não reserves do mundo só um recanto tranquilo não deixes cair as pálpebras pesadas como julgamentos não fiques sem lábios não durmas sem sono não te penses sem sangue não te julgues sem tempo
porém se apesar de tudo não podes evitar e congelas o júbilo e queres com apatia e te salvas agora e te enches de calma e reservas do mundo só um recanto tranquilo e deixas cair as pálpebras pesadas como julgamentos e te secas sem lábios e adormeces sem sono e te pensas sem sangue e te julgas sem tempo e ficas imóvel na beira do caminho e te salvas então não fiques comigo.
com esta solidão de sangrados achaques de distantes uivos de monstruoso silêncio de lembranças em alerta de lua congelada de noites para outros de olhos bem abertos
Quem teria acreditado que se encontrava só no olhar, oculto, teu olhar. Quem teria acreditado essa terrível ocasião de nascer posta ao alcance da minha sorte e dos meus olhos, e que tu e eu iríamos, despojados de todo o bem, de todo o mal, de tudo, nos acorrentar no mesmo silêncio, nos inclinar sobre a mesma fonte para ver-nos e ver-nos mutuamente espiados no fundo, tremulando na água, descobrindo, pretendendo encontrar quem eras tu atrás desta cortina, quem era eu atrás de mim. E ainda não vimos nada. Espero que alguém venha, inexorável, sempre temo e espero, e acabe por nos nomear um signo, por nos situar em alguma estação por nos deixar ali, como dois gritos de assombro.
é claro você sorri e não importa quão linda ou quão feia quão velha ou quão jovem quão muito ou quão pouco você realmente seja
sorria como se fosse uma revelação e o seu sorriso anula todas as anteriores caducam no momento seus rostos como máscaras seus olhos duros frágeis como espelhos ovais sua boca de morder seu queixo de capricho suas bochechas perfumadas suas pálpebras seu medo
sorria e você nasce assume o mundo olha e ao olhar indefesa nua transparente
e por aí se o sorriso vem de muito muito dentro você pode chorar simplesmente sem dilacerar-se sem desesperar-se sem convocar a morte nem sentir-se vazia
chorar só chorar então seu sorriso se ainda existe se torna um arco-íris.
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas o Jardim Botânico é um parque adormecido onde podemos nos sentir árvores ou gente desde que se cumpra um requisito prévio. Que a cidade exista tranquilamente longe.
[...]
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas o Jardim Botânico sempre teve uma agradável propensão aos sonhos a que os insetos subam pelas pernas e a melancolia desça pelos braços até que a gente fecha os punhos e a prende
Depois de tudo o segredo é olhar para cima e ver como as nuvens disputam as copas e ver como os ninhos disputam os pássaros.
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês ah mas os casais que correm pro Botânico quer desçam de um táxi, quer pousem de uma nuvem falam normalmente de temas importantes e se olham fanaticamente nos olhos como se o amor fosse um brevíssimo túnel e eles se contemplassem por dentro desse amor.
Aqueles dois por exemplo à esquerda do carvalho [...] falam e pelo jeito as palavras ficam comovidas a olhá-los já que a mim não me chegam nem mesmo os ecos
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas é lindo imaginar o que dizem ainda mais se ele morde um raminho e ela deixa o sapato sobre a grama ainda mais se ele tem os ossos tristes e ela quer sorrir mas não consegue.
Para mim o rapaz está dizendo o que se diz às vezes no Jardim Botânico
ontem chegou o outono o sol de outono e me senti feliz como há muito que linda estás te quero em meu sonho de noite se escutam as buzinas o vento sobre o mar e mesmo assim aquilo também é o silêncio me olha assim te quero eu trabalho com vontade faço contas fichas e discuto com cretinos me distraio e blasfemo me dá a tua mão agora já sabes te quero penso às vezes em Deus bem não tantas vezes não gosto de roubar seu tempo e além do que está longe tu estás ao meu lado agora mesmo estou triste estou triste e te quero já passarão as horas a rua como um rio as árvores que ajudam o céu os amigos e que sorte te quero há muito era criança há muito e o que importa o acaso era simples como entrar nos teus olhos me deixa entrar te quero ainda bem que te quero.
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas pode acontecer de que de repente a gente sê de conta que na verdade se trata de algo mais triste um desses amores de tântalo e sorte que Deus não admite porque tem ciúmes.
Reparem que ele confessa com ternura e ela se apoia contra o tronco reparem que ele vai desfiando lembranças e ela aceita misteriosamente.
Para mim o rapaz está dizendo o que se diz às vezes no Jardim Botânico
tu disseste nosso amor foi desde de sempre um menino morto só às vezes parecia que ia viver que nos venceria mas nós dois fomos tão fortes que o deixamos sem seu sangue sem seu futuro sem seu céu um menino morto só isso maravilhoso e condenado talvez tivesse um sorriso como o teu doce e fundo talvez tivesse uma alma triste como minh'alma pouca coisa talvez aprendesse com o tempo a desdobrar-se a usar o mundo mas os meninos que assim vêm mortos de amor mortos de medo têm tão grande o coração que se destroem sem saber tu disseste nosso amor foi desde de sempre um menino morto e que verdade dura e sem sombra que verdade fácil e que pena eu imaginava que era um menino e era somente um menino morto agora o que falta só falta medir a fé e que lembremos o que poderíamos ter sido para ele que não pode ser nosso o que mais e quando chegue um vinte três de abril e abismo tu onde estejas leva-lhes flores que eu também irei contigo
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas o Jardim Botânico é um parque adormecido que só se desperta com a chuva.
Agora a última nuvem resolveu ficar e está nos molhando como a alegres mendigos.
O segredo está em correr com precauções Para não matar nenhum besouro E não pisar nos cogumelos que aproveitam Para nascer desesperadamente.
Sem prevenções me viro e continuam aqueles dois à esquerda do carvalho eternos e escondidos na chuva dizendo-se quem sabe que silêncios.
Não sei se alguma vez aconteceu com vocês mas quando a chuva cai sobre o Botânico aqui ficam só os fantasmas. Vocês podem ir. Eu fico.
Podes querer a aurora quando ames. Podes vir e reclamar-te como eras. Conservei intacta tua paisagem. A deixarei em tuas mãos quando estas cheguem, como sempre, anunciando-te. Podes vir a reclamar-te como eras. Mesmo que já não sejas tu. Mesmo que minha voz te espere sozinha em seu acaso queimando e teu sonho seja isso e muito mais. Podes amar a aurora quando queiras. Minha solidão aprendeu a ostentar-te. Esta noite, outra noite tu estarás e voltará a gemer o tempo giratório e os lábios dirão esta paz agora esta paz agora. Agora podes vir a reclamar-te, penetrar em teu lençóis de alegre angústia, reconhecer teu quente coração sem desculpas, os quadros persuadidos, saber-te aqui. Haverá para viver qualquer fuga e o momento da espuma e do sol que aqui permaneceram. Haverá para aprender outra piedade e o momento do sonho e do amor que aqui permaneceram. Esta noite, outra noite tu estarás, cálida estarás ao alcance dos meus olhos, longe já da ausência que não nos pertence. Conservei intacta tua paisagem mas não sei até onde está intacta sem ti, sem que tu lhe prometas horizontes de névoa, sem que tu reclames sua janela de areia. Podes querer a aurora quando ames. Deves vir a reclamar-te como eras. Mesmo que já não sejas tu, Mesmo que contigo tragas dor e outros milagres. Mesmo que sejas outro rosto do teu céu para mim.
Temos chegado ao crepúsculo neutro onde o dia e a noite se fundem e se igualam. Ninguém poderá esquecer este descanso. Passa sobre minhas pálpebras o céu fácil a deixar-me os olhos vazios de cidade. Não penses agora no tempo de espinhos, no tempo de pobres desesperos. Agora só existe o desejo nu, o sol que se desprende de suas nuvens de pranto, seu rosto que se interna noite adentro até ser somente voz e rumor de sorriso.