Mostrando postagens com marcador maria joão cantinho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maria joão cantinho. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de outubro de 2011

e nada recusa


























armene-deviantART


Pedem à mulher que se sente
e sossegue o fogo dos gestos,
pedem-lhe que ilumine a noite
que há no seu corpo. Pedem.
E ela morde os lábios,
um não, o grito.

Pedem à mulher que se cale
e que não escreva a loucura
que traz nas mãos, o tropel
que avança no seu ventre. Pedem.

E pedem-lhe que siga,
que deixe de ler as estrelas
quando ela já nada pode. Pedem.

Pedem-lhe que deixe de amar a madrugada
e que não acredite na liberdade.
Não existe, dizem.

Mas a mulher traz a ferocidade nos pulsos,
não dorme e vela a noite como um lobo,
aperta os lábios, não chora,
dança, nua e descalça, sobre o fogo das palavras,
não teme a escuridão nem as feras
que descem da montanha para a ver.

A mulher conhece o som
do coração da terra,
escuta a fala das árvores, o salto do tigre.

E ela sabe que só a dança
salva o grito. Luta.
O corpo desarmado e nu,
o canto selvagem
que nasce de si,
na desvairada recusa. Dança.


Essa mulher que caminha no orvalho da madrugada,
de pés nus, que dança na margem do rio,
ouvindo o vento da noite,
essa mulher
que canta o silêncio até onde o grito,
traz na fronte a cicatriz,
que se desenha como a luz na água, a sua loucura,
ela, alheia a tudo,
dança até onde a música eleva os seus pés,
ardem-lhe os lábios, morde a dor, a vida
e nada recusa.

Dança até onde a tempestade a leva.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

no coração da magnólia


























Valérie Jacquemin


De repente a magnólia
pulsa, não digas a solidão.

Guarda tudo, pois a música escoa,
um rumor de chuva
mansa, cintila
no rastro da lua

e pulsa o coração,
chegam os seres da noite
de pálpebras carregadas
sonhos em filigrana,
o grito contido.

O orvalho acontece
por dentro, olhos recolhidos
na saudade, o frio,

de repente a magnólia
pulsa, e a escuridão
é um adágio, não digas a solidão.

Alguém que me lê
o centro do coração ilumina-se,
o poema flui e ouves
o canto, não as palavras
decepadas,
arrancadas à opacidade.

Ouves. No coração da magnólia.

o sabor de um nome



























Piotr Vasco Wasilkowski

a F.M.

Fere esse dardo, um pedaço de mim que entra em guerra consigo próprio. Chama que se atravessa na carne e luta contra o repouso que se busca. Duas asas que cobrem a terra e o corpo sangra. Duas asas lutando por erguer-se e libertar-se da terra. Lutando por elevar o rosto do anjo ao olhar de deus. Aí a luz, penetrando a densa camada que transforma o mundo em escuridão. A pele esticada sob o céu, os órgãos à transparência. O desejo. Como um tambor, a pele esticada, os nervos à superfície. Pequenos veios esverdeados, cruzando-se infinitamente. Um dédalo à visibilidade da pele, que estremece. O céu em cima, o inferno a suportá-lo. O corpo algures, a desejar o nome, em fúria adocicada de querer fundir-se num outro, de que procura o nome. Suspende-se nas asas do tempo, fulge na memória, procura o intervalo entre dois instantes. Nem passado nem futuro. O instante do Agora. O Aqui onde é. A pele estremece entre os lilases da noite, perde-se na saliva salgada do mar. O corpo enlouquece à procura do nome que o faz vibrar. Esse dardo traz consigo o sabor de um nome.