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domingo, 22 de maio de 2011

a vida é feita de mudança

















musicandphotography
deviantART



Vejo ainda coisas por dizer: em cada mudança
não somos já quem costumávamos: e quando mudamos,
é quem fomos que fica ainda por mudar. Um ser pode
ser tudo o que quisermos, se o tempo o deixar;
mas não será outro se entre ontem e hoje
se não souber transformar: pois é o desejo,
mais do que a fortuna, que faz com que sejamos
amanhã o que hoje não esperamos ser; a não ser
que o amor nos prenda à sua sorte constante. Então,
de dentro da alma, o sereno rosto procura novas
inquietações; e o teu riso o desperta de entre dias
e estações, convidando-o para a vida que é assim:
feita de mudança, quando tudo vai ficar;
e insistindo em ser o que tinha que mudar.


[por dentro do fruto a chuva - relendo camões]

me embeba com a tristeza

























A tristeza que corrói as tuas frases, com o
gotejar da vida que não tivemos, com o tempo
que não temos nem teremos, com o ruído
de papéis no fundo de armários e de
esconderijos, com as palavras que doem
como pedras e espinhos, com o vento
correndo pelos campos da memória,
como a mulher que te olhou como se não
te visse, e o homem que desviou os olhos
porque nem o sol nem o amor se podem
olhar de frente, essa tristeza cai-me na alma,
rouba-me o riso dos teus lábios, prende-me
à tua dor tão distante como o horizonte. Mas
preciso de te ouvir, mesmo com a tristeza das
tuas frases, com o eco de insónias e solidões,
com o desejo que cai por entre silêncios
e murmúrios, para que a tua voz fique por
dentro de mim, me embeba com a tristeza,
e me dê o tempo das frases que a noite corrói.


[por dentro do fruto a chuva - poema]

domingo, 31 de outubro de 2010

como o sol que bate nos teus olhos





















© chat noir

As coisas simples dizem-se depressa, tão depressa que nem conseguimos que as ouçam. As coisas simples murmuram-se, um murmúrio tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém. As coisas simples escorrem pela prateleira da loja, tão ao de leve que ninguém as compra. As coisas simples flutuam como vento, tão alto, que não se vêm. São assim as coisas simples: tão simples como o sol que bate nos teus olhos, para que os feches, e as coisas simples passem como sombra sobre as tuas pálpebras.

terça-feira, 6 de abril de 2010

a vida















A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.