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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

como o trigo entende o vento

























por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
...como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
...toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome a mão anuncia a ternura
...que é quando os meus olhos procuram os teus


[um mover de mão – invocação]

e deixar passar as horas como quem flutua























Pere Chuliá


nas palavras lavo os panos tristes
que no fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.

sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isto comprimido no pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar do ano.

vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
– vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.

hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.


[um mover de mão – lua cheia]

domingo, 25 de setembro de 2011

depois do frio, ainda...




















Zaratops-DeviantART


pisamos no chão o outono
e numa inspiração principiamos
o tempo que há-de vir:
as falésias, os lagos inundados de sol,
a casa habitada entre as árvores,
o silêncio essencial de todas as pedras.

pisamos como se bebêssemos o sentido,
como se em dez dedos coubesse o corpo
de uma mulher altíssima, sábia dos dias,
e a cama escutasse de noite a geração das coisas
sem que as paredes contivessem o ventre oculto.

dá-se em mim o sangue desse amor tão impensável
- na palavra que me leva os lábios o calor dos pulsos
depois acendo as lágrimas e desenho no ar as tuas mãos.


[um mover de mãos - um]

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

que me entendas a um palmo do peito




























Embrulho-me no silêncio da tua

chegada. O espelho turvo

do teu nome acelera em mim

a evidência deste corpo em

que persisto.

Fazes-me espesso, orgânico,

compacto em torno do absurdo forte

de nos imaginar reciprocamente

despenhados.

Pois sinto que caminho já no ar,

cada passo mais distante,

à espera da tua levitação, que me entendas

a um palmo do peito, enfim caídos

por consequência da rendição.

Entre nós e o mundo há

quinhentos metros

de grito.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

me deito sobre tudo quanto amei

























[...]
entre os mundos detecto a estranha forma dos anos
que vêm a ser os nossos, os meus, onde eu procuro caber,
e não só caber como exceder, infringir, ser louco
à revelia do rosto e da consoante, explodir como uma vogal.

porque se descobrirá o tamanho desta lágrima breve,
porque o verso está grávido do poema e o poema
de todo o mundo possível, e todo o mundo possível
aponta para a completude dos braços que não fechamos.
oscultamos as portas e as casa serão sempre imprevisíveis.

por isso me deito sobre tudo quanto amei
e, ao cair a gota de luz no silêncio onde vou nascer,
escolho a margem, a fronteira, a idade redonda de um lírio.


[um mover de mão - lírio]