quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
























uma manhã para ser eu

























trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu

e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesses chorar a morte do sol

sei tão pouco


















Sei tão pouco
dos poemas que te escrevo,
a palavra eriçada,
coberta de cinza na língua
que não sabemos pronunciar.

Sei tão pouco dos teus dedos,
onde se prolonga a pele
sedenta de mais pele,
reduzindo a escombros o sol.

Sei tão pouco dos teus olhos,
lugar de silêncios onde
se guarda a penumbra e
se acertam os passos,
vagarosos conta-gotas do infinito.

Sei tão pouco de mim
que me inundam estas
lágrimas por dentro,
sôfregas, centrífugas,
serpenteando caminhos
rumo ao incêndio.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

aquilo que fica...

perco a memória da tua voz

























tinha comigo um pedaço de ti
e enquanto caminhava
cada passo evocava a tua presença
e tu estavas mais perto

de vez em quando arrancava uma memória
para passar o tempo
e sangrava muito sempre que o fazia

e um sentimento de culpa
invadia-te por dentro
e eu sentia que estavas perto
e ao mesmo tempo tão distante de mim

às vezes perco a memória da tua voz

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

mas viver não nos derrota, deslumbra!





















Rachel
Querrien


......................................
(para Carla)

Paga-se a vida tão caro,
mas viver não nos derrota,
deslumbra. estando certo
de que o tempo terá como
e onde ficar: no entressono.
E não sou mais estrangeiro.
Deus concedeu esta graça
de permitir que mais velho,
por tanto errar, possa ao menos
contemplar que sou eterno.


[os viventes - jacintos sobre o jarro]

domingo, 11 de dezembro de 2011

acolhida à sombra da árvore que passa




















Jenniholma
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Amo em ti o medo

de morrer, folha

que vai caindo

no meu olhar; entre a luz

e o pó

o pó e a cal

da minha morte. Nua

e acolhida

à sombra da árvore que passa.

pouca importa






















andrey
dubinin



Não há ninguém que baile para ti?
Ninguém que por ti diga a melhor
é sempre a primeira vez, não há
ninguém que ao semicerrar os olhos
te inclua dentro? Pouco importa,
iguais vão suceder-se os dias
como soldados num domingo
vitorioso. Não há ninguém que viva
para ti? Assim é como começaste.
Ainda te faltam coisas para descobrir,
pensa nisso, entre os dias encontrarás
o sossego que detenha a tua vida
e nessa altura, que não baile
para ti não passará de uma borra
no fundo do copo que bebes até ao fim.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

real, real porque me abandonaste?






















duchesse-2-guermante


Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

um resto...só





















andyp89
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[...]
como findaram os dedos que prenderam
o bordão de ternura
que tantos outros nos cortaram.

Tal qual o prédio caímos
e apenas o pó
desenha entre o que nem persigo
um resto que sabe que está só
porque nenhuma solidão vem ter consigo.

mas podes deixar: eu me apago sozinho...






















ennil

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Quantas vidas terminei sem antes começar? Quantas chances tive de ser diferente? Eu me consumi e não sei se sinceramente acreditava ou se era a noite que me fazia crer em noites. Eu me consumi e não me acabei. Eu quis me expulsar e me tranquei mais fundo. Ainda resta algo que não foi varrido, vasculhado, amansado. Nada soterra o tempo: cada vez mais recente quanto mais antigo. Olho para os filhos e não sei dizer o que queria dizer, não sei o que dizer, quando estou pensando tenho convicção que direi e, na hora de falar, estou de novo esvaziado. Eu precisava de tão pouca coisa e não me aceitei em troca. Não mudei o mundo apenas porque não sabia qual o mundo em que vivia. A noite tinha uma promessa que não era esperança, uma promessa que me fazia vivo, possível, insolente, insensato, inconseqüente. Ardendo vivo uma água-viva, árvore de água, escada de água. Plumas de água, espuma de escada. O vento amassava o pão da grama e eu pastava a céu aberto, patético como a relva em seu início, entontecido de uma umidade branda. Perdi amigos por tão pouco, por tão pouco julgava e condenava e não me absolvia. E como uma oração que se pressente, não dizia, não podia dizer com meus braços magros e ossudos, de imprevista simplicidade. E não me via inteiro, e sim aos sorvos e goles, falava o que queria, negava o que podia, afirmava o que não sentia e tudo era misturado o suficiente para não descobrir a origem. Perdi amigos, ganhei amigos, porém estive irremediavelmente isolado. Eu não me atingia. Nunca me alcancei. Seguro minha mão como a de um estranho. E houve desencanto, houve engano, disse que não mais faria, que era forte e que não precisava disso e refiz e fiz e voltei como quem nasce para ensaiar o grito. Como explicar minha risada súbita no meio de um jantar sério de negócios? Como explicar que debocho do que sou, mas com ternura? O deboche é minha maneira de falar que eu me entendo e isso não me basta. Que eu caminho como quem se escora em um ombro, que me escondo como quem caminha. Que nunca me salvei das noites onde não estive, que envelheci sem saber se a verdade traz beleza, se estava mesmo em mim ou se alguém perto me descreveu. Eu me apago sozinho. Não me acendi, mas podes deixar, eu me apago sozinho.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

arritmia
























mirabiliaimages



Detestava coincidências, simetrias,
concordâncias, a facilidade com que as coisas
se arrumam por afinidade ou contraste
só para afeiçoar um sentido ao seu
descomandado fluxo. Sonhava com
uma aspirina que todos os dias reavivasse
a desordem na flora recôndita do mundo,
devolvendo a arritmia à batida cardíaca

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

lendo o que escreves



















nairafee
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Alguém lê o que escreves, triste consolação,
pálida alegria, caindo a tarde sobre as coisas.
A vida perfeita vem do outro lado do mar,
como uma frase que nunca foi dita, amável
claridade que os seus olhos nunca atormentam;
não têm fundo. A vida perfeita é breve.

Cada palavra é um resumo – e, em cada palavra,
quanto deixas de teu?, quanto delas se perde
nas florestas? O silêncio protege-te de ti mesmo,
guarda os dias para os grandes passeios
entre as fronteiras da terra distante, onde a luz
te espera; guarda qualquer coisa nesse espaço

em branco do teu coração. Quantas noites
o que escreveste se perdeu – sem saberes, afinal,
que para ela escrevias? Tentação quando a tua
natureza cede e a vida regressa para que tu fales,
alguma vez falando de amor, quase sem respirar.
Que não esteja nos teus braços, mas que se aproxime,

como o calor da ventania, os passos da areia, a sede
de outra sede igual. Como saberias que o amor existe
longe da sua pele? Se escreves, sobre isso escreves,
e dizes o nome dos planetas, das feridas. Esperas
que venha esse sinal e te chame quando a noite
não sabe de que lado está, nem de que lado dorme.