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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

na procura de um eu imaginário

















utopic-man-deviantART


Nosso amor se mutila

a cada instante. A cada

instante agonizamos

ou agoniza alguém

sob o carinho nosso.

Ah, libertar-se, lá

onde as almas se espelhem

na mesma frigidez

do seu retrato, plenas!

É sonho, sonho. Ilhados,

pendentes, circunstantes,

na fome e na procura

de um eu imaginário

e que, sendo outro, se aplaque

todo este ser em ser,

adoramos aquilo

que é a nossa perda. E morte

e evasão e vigília

e negação do ser

com dissolver-se em outro

transmutam-se em moeda

e resgate do eterno.

[nova reunião]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

na luz que baixa e me confunde























julkusiowa deviantART




Mas, porque me tocou um amor crepuscular,

Há que amar diferente. De uma grave paciência

Ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia

Tenha dilacerado a melhor doação.

Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos

E estou vivo na luz que baixa e me confunde.


sábado, 30 de julho de 2011

percebi tudo: nada
























Johann Smari


Eu não sei o que diga
se me falam na rua.
Não estou preparado
para conversa no ar.

Não sei fazer visita
e dizer as amenas
frases que toda gente
traz no bolso da calça.

A mentira é difícil
e não por ser mentira:
porque exige da gente
a arte de inventar.

A alegria é difícil
de se manifestar,
não por ser alegria.
Porque é forte demais.

O sofrimento é fácil
de se exigir na face.
Tudo dói, tudo queima
sem fósforo aparente.

Os parentes me falam
uma língua só deles.
Eu entendo a linguagem
das pedras sem família.

Tudo é mais complicado
se se tenta explicar.
Um gato me fitou,
percebi tudo: nada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

amor? amar?



















mymadeleine
deviantART

Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num
calcinado e pungitivo lugar que regamos de fúria,
êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas. E que presságios
de seus cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora
infinda, se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez - é lei - desaparecem.
E ouvi amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um crime.

De novo essa vozes, peço-te: Esconde-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde
os caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos
de ouro batendo a água transfigurada; correntes
tombam. Em nós ressurge o antigo; o novo; o que de nada
extrai forma de vida; e não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.


[nova reunião - estâncias]

quinta-feira, 2 de junho de 2011

não vivem senão em nós














MojoFire
DeviantART



Cada dia que passa incorporo mais esta verdade, de que eles não
.................................................................[vivem senão em nós
e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil.
Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama
....................................................................................[tempo.
E essa eternidade negativa não nos desola.
Pouco e mal que eles vivam, dentro de nós, é vida não obstante.
E já não enfrentamos a morte, de sempre trazê-la conosco.

Mas, como estão longe, ao mesmo tempo que nosso atuais
.......................................................................[habitantes
e nossos hóspedes e nossos tecidos e a circulação nossa!
A mais tênue forma exterior nos atinge.
O próximo existe. O pássaro existe,
E eles também existem, mas que oblíquos! e mesmo sorrindo, que
.............................................................................[disfarçados...

Há que renunciar a toda procura.
Não os encontraríamos, ao encontrá-los.
Ter e não ter em nós um vaso sagrado,
um depósito, uma presença contínua,
esta é nossa condição, enquanto,
sem condição, transitamos
e julgamos amar
e calamo-nos.

Ou talvez existamos somente neles, que são omissos, e nossa
............................................................................[existência,
apenas uma forma impura de silêncio, que preferiram.


[nova reunião - convívio]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

um minuto de esperança












John Clutterbuck



Um minuto, um minuto de esperança,
e depois tudo acaba. E toda crença
em ossos já se esvai. Só resta a mansa
decisão entre morte e indiferença.

Um minuto, não mais, que o tempo cansa,
e sofisma de amor não há que vença
este espinho, esta agulha, fina lança
a nos escavacar na praia imensa.

Mais um minuto só, e chega tarde.
mais um pouco de ti, que não te dobras,
e que eu me empurre a mim, que sou covarde.

Um minuto, e acabou. Relógio solto,
indistinta visão em céu revolto,
um minuto me baste, e a minhas obras.



[nova reunião - a distribuição do tempo]

sábado, 21 de maio de 2011

é sempre...






















É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.


[o enterrado vivo]

domingo, 15 de maio de 2011

sonho de um sonho

















[...]

Sonhei que meu sonho vinha

como a realidade mesma.

Sonhei que o sonho se forma

não do que desejaríamos

ou de quanto silenciamos

em meio a ervas crescidas,

mas do que vigia e fulge

em cada ardente palavra

proferida sem malícia,

aberta como uma flor

se entreabre: radiosamente.


[nova reunião - sonho de um sonho]

segunda-feira, 9 de maio de 2011

e o carinho mudo corta a solidão















© Elisabetta Ronchi



Só o primeiro cão,

em frente do homem

cheirando futuro.

Os dois se reparam,

se julgam, se pesam,

e o carinho mudo

corta a solidão.

Canta uma canção

no ermo continente,

baixo, não te exaltes.


[nova reunião - américa]

vivendo, estamos doendo





















GreenEyezz
DeviantART



[...]

Não é pois todo o amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é o motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca a sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo...


[nova reunião - relógio do rosário]

domingo, 8 de maio de 2011

além do amor...

















[...]

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.



[nova reunião - a tela contemplada]

terça-feira, 3 de maio de 2011

que não ouso compreender...

























[...]

Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.

Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...


[nova reunião]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

uma hora e mais outra





















Grethchen
DeviantART




Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicólor,
a falta de amor,
a falta de amor,
A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto;
nem a pobre hora da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se a figura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe sozinho
ou na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carne,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo, outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n'água, na folhagem.
Pés que marcham muitos,
alguns se desviam,
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.