quinta-feira, 5 de maio de 2011
aos que buscam

Amo os que atravessaram os campos
desamparados
mais do que se pode
Amo suas verdades:
algum ânimo, vitórias inúteis
um sentido impróprio para a inocência
nada ou quase nada diferente
do perigo
ninguém soube ao certo donde vinham
para encontrar uma vida
ou coisa mais pura ainda
entregues como este verão já no fim
às folhas secas
que voam
[baldios - levada do castelejo]
tudo o que te disser

weheartit.com
São feitas de palavras as palavras
e da melancolia da
ausência da prosa e da ausência da poesia.
É o que falta que fala
do lugar do exílio
do sentido e da falta de sentido.
Tudo o que te disser
tudo o que escrever
sou eu a perder-te,
cada palavra entre
o que em mim é corpo
e é nela sopro.
[nenhuma palavra e nenhuma lembrança]
terça-feira, 3 de maio de 2011
que não ouso compreender...

[...]
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
[nova reunião]
me dás teu amanhecer

[...]
me dás teu coração esse carrasco
e eu te dou minha calma essa mentira
tu o vôo dos teus olhos / eu minha raiz ao sol
tu a pele do teu tato / eu meu tato em tua pele
me dás teu amanhecer e eu te dou meu ângelus
tu me abres teus enigmas / eu te encerro em meu acaso
me expulsas do teu esquecimento / eu nunca te esqueci
vais vais vens / vou vou te espero.
[o amor, as mulheres e a vida – truque]
segunda-feira, 2 de maio de 2011
mais!

Khomenko
DeviantART
[...]
Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem,
contra todas as probabilidades e expectativas,
abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginamos,
embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas),
saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras,
muito mais negras e mais difíceis.
Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã,
mesmo assim
DESEJAMOS, ACIMA DE TUDO, MAIS.
[as horas]
seja o desejar a força que nos guie
anda!
domingo, 1 de maio de 2011
é o silêncio!
a mentira de amar é a verdade da vida

[...]
Não! Não é isso o amor!
O amor talvez consiste na dor de se querer tudo o que não existe...
Na angústia de se ver sumir nas distâncias
o sonho que nasceu das nossas próprias ânsias...
Tudo é nada! A ilusão de uma alma que se atira,
cantando atrás do aceno azul de uma mentira
pra ficar, enfim, sangrando, convencida
que a mentira de amar é a verdade da vida!
[coleção melhores poemas - a voz]
sexta-feira, 29 de abril de 2011
a sabedoria é para os barcos

© Sonny Kreutz
A sabedoria é para os barcos
sob as pontes da noite,
a alma, o oiro.
Aqui dormiria, à distância singular
de um beijo, um lençol de água,
um travesseiro de cuidada pedra.
Outras coisas da infância, mas devagar,
outros corpos a penumbra percorrendo,
a poeira da luz espiando os sapatos,
a navalha chamuscada.
Também eu herdei a perigosa ilusão
da bicicleta, um silêncio
danado por mulheres,
pelo ardor cristalino do álcool,
no limbo mais rasgado do mundo;
o segredo tão natural da pintura
na profecia azul dos mosaicos,
no carvão amargo da noite;
certos vestígios pelo tráfico outrora florescente:
sedas, frutos, tabaco, pequenos tesouros,
caixinhas de laque, sandálias
gastando, dia após dia, a mágoa.
Que posso fazer pelas pedras desta praça senão
cobri-las de aves, trapos, moedas
e pela poalha do crepúsculo seduzir os vitrais,
os óleos santos, o sândalo,
o bolor intenso das paredes?
Cambiar a chuva pelos claustros do vento, o vidro
de oficiante fogo, como em Murano a família Barelli?
Que poderei comprar para o vazio
deste anoitecer? um pouco do meu sol?
daquele mar, um punhado de areia?
memória ou esquecimento

O perfume da rosa envolve por ser efêmero,
qualquer paixão que vale a pena é suicida.
E ele se perdeu mais uma vez, pra descobrir que todo o corpo é feito de matéria e
não há luz além daquela que a vontade projeta.
Mas não falemos de empreitadas frustradas,
a experiência é um fim em si mesmo,
quem perde termina mais rico que quem toma.
No fim, o ser é feito de memória assim como de esquecimento,
um caminho não trilhado nega ambos.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
assim se desfia a alma
tudo é memória...
a chuva a morder o chão
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