terça-feira, 4 de outubro de 2011
doces renúncias...

Dougal Waters
Visitador do meu seio
interior a mim
o júbilo
segura o olhar que vacila
na vastidão
dos tumultos
Inscrição de alegria
súbita flor
o vento descobre
entre as águas
ilumina meus passos
pela sombra larga
dos medos
pois o rio se recolhe
à humilde exultação
da fonte
e a flor se abandona
à véspera esplendorosa
do fruto
[a noite abre meus olhos - visitação]
domingo, 2 de outubro de 2011
onde não escrevo deixo a luz apagar

ekhoz-deviantART
As luzes engrossam o ar da noite
e logo um inferno se antevê numa estrela.
É fácil ao ouvir a chamada de um velho amigo
ir de encontro ao pedido e aceder
mil vezes aceder ao vício de articular o horizonte
por palavras que andam de terra em terra
em vida de circo.
Tapo a boca com um sorriso
reverto o reverso no seu lado único
e estoura-me um vulcão pequenino
com água quente e solidão à porta
da hora começada.
Molha-se o papel a história segue em parte
onde não escrevo deixo a luz apagar.
sábado, 1 de outubro de 2011
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
ficar
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
flores & frutos
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
na procura de um eu imaginário

utopic-man-deviantART
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso.
Ah, libertar-se, lá
onde as almas se espelhem
na mesma frigidez
do seu retrato, plenas!
É sonho, sonho. Ilhados,
pendentes, circunstantes,
na fome e na procura
de um eu imaginário
e que, sendo outro, se aplaque
todo este ser em ser,
adoramos aquilo
que é a nossa perda. E morte
e evasão e vigília
e negação do ser
com dissolver-se em outro
transmutam-se em moeda
e resgate do eterno.
[nova reunião]
terça-feira, 27 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
no coração da magnólia

Valérie Jacquemin
De repente a magnólia
pulsa, não digas a solidão.
Guarda tudo, pois a música escoa,
um rumor de chuva
mansa, cintila
no rastro da lua
e pulsa o coração,
chegam os seres da noite
de pálpebras carregadas
sonhos em filigrana,
o grito contido.
O orvalho acontece
por dentro, olhos recolhidos
na saudade, o frio,
de repente a magnólia
pulsa, e a escuridão
é um adágio, não digas a solidão.
Alguém que me lê
o centro do coração ilumina-se,
o poema flui e ouves
o canto, não as palavras
decepadas,
arrancadas à opacidade.
Ouves. No coração da magnólia.
o sabor de um nome

Piotr Vasco Wasilkowski
a F.M.
Fere esse dardo, um pedaço de mim que entra em guerra consigo próprio. Chama que se atravessa na carne e luta contra o repouso que se busca. Duas asas que cobrem a terra e o corpo sangra. Duas asas lutando por erguer-se e libertar-se da terra. Lutando por elevar o rosto do anjo ao olhar de deus. Aí a luz, penetrando a densa camada que transforma o mundo em escuridão. A pele esticada sob o céu, os órgãos à transparência. O desejo. Como um tambor, a pele esticada, os nervos à superfície. Pequenos veios esverdeados, cruzando-se infinitamente. Um dédalo à visibilidade da pele, que estremece. O céu em cima, o inferno a suportá-lo. O corpo algures, a desejar o nome, em fúria adocicada de querer fundir-se num outro, de que procura o nome. Suspende-se nas asas do tempo, fulge na memória, procura o intervalo entre dois instantes. Nem passado nem futuro. O instante do Agora. O Aqui onde é. A pele estremece entre os lilases da noite, perde-se na saliva salgada do mar. O corpo enlouquece à procura do nome que o faz vibrar. Esse dardo traz consigo o sabor de um nome.
domingo, 25 de setembro de 2011
depois do frio, ainda...

Zaratops-DeviantART
pisamos no chão o outono
e numa inspiração principiamos
o tempo que há-de vir:
as falésias, os lagos inundados de sol,
a casa habitada entre as árvores,
o silêncio essencial de todas as pedras.
pisamos como se bebêssemos o sentido,
como se em dez dedos coubesse o corpo
de uma mulher altíssima, sábia dos dias,
e a cama escutasse de noite a geração das coisas
sem que as paredes contivessem o ventre oculto.
dá-se em mim o sangue desse amor tão impensável
- na palavra que me leva os lábios o calor dos pulsos
depois acendo as lágrimas e desenho no ar as tuas mãos.
[um mover de mãos - um]
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
que me entendas a um palmo do peito

Embrulho-me no silêncio da tua
chegada. O espelho turvo
do teu nome acelera em mim
a evidência deste corpo em
que persisto.
Fazes-me espesso, orgânico,
compacto em torno do absurdo forte
de nos imaginar reciprocamente
despenhados.
Pois sinto que caminho já no ar,
cada passo mais distante,
à espera da tua levitação, que me entendas
a um palmo do peito, enfim caídos
por consequência da rendição.
Entre nós e o mundo há
quinhentos metros
de grito.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
quero-o nuvem...

[latoday-deviantART]
Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
[obrigada meu amor por me cuidares a 15 anos]
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
[obrigada meu amor por me cuidares a 15 anos]
resplendes-me em silêncio
terça-feira, 20 de setembro de 2011
serei menos do que sei...

sea of ice deviantART
Olhava para o que o meu corpo tem sido e pude ver que todos os retratos
escondiam num fio de oiro memórias inexistentes. Havia apenas uma criança
que gritava fogo e ao dizer fogo as lágrimas exclamavam uma dor perdida,
a dor de ter dor misturada com a dor de não saber dar-lhe nome.
Sobre as veias da mão bate o desespero, antigo, desde os tempos modernos,
reflectido agora na faca do creme do bolo, nas velas só belas
quando a luz faltava. Em todos os graus da luz deixei a pele, era um amor
que balbuciava o seu nome de trás para frente, mudei de razões num inverno.
Não desce devagar ao longo da cara a marca do tempo, apenas golpes
no espaço da semente a crescer, sobre ti caindo a minha mão adormecida,
o primeiro cabelo branco nessa cara de uma noite para outra.
Ah, se os homens pudessem dar cada um seu testemunho, com as imagens
fatais de amor e morte, ignorando toda a beleza à sua volta.
Três ou quatro caras encostadas olhavam as papoilas do campo, e era
como se olhassem espiões a atacar para ganhar poder. Um delírio
do meu sonho? Saía a rastejar de umas catacumbas sem uma única palavra.
Sai de mim, estéril desejo, ao gritar profundamente gargalhei
o mais que eu pude, quase até a forçar o riso. Todo o homem fingindo
ver pouco do corpo é cinza, é quase só tudo água.
Isto foi tudo um engano, até a vida instantânea que é de manhã à noite
bocejo, eu só sei que podia ser diferente a minha vida, podia,
mas não vai ser. Serei menos do que sei, mas se fosse tudo tão previsível
como a certeza de ver a sombra do meu nariz, a vida nem existia.
[...]
[lágrimas]
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