quarta-feira, 13 de julho de 2011

palavras como acto inevitável


























No gesto quotidiano do beber das plantas
está cada palavra que para ti escrevo,
para ti e para todos.
A ponta da língua que se queima enquanto faço café,
quando seguro a porta com um dedo
e as unhas batem no azulejo
com a raiva do que se sabe indefinidamente postergado.
Mais tarde não mais passará o tempo;
quando nos levantarmos pela noite
com uma sensação de medo atrás das orelhas,
fingindo que dormimos,
pensando em coisas maiores.
Mas agora enchem-se-me as linhas de palavras
carecendo de um mínimo de traçado,
uma iluminação remota
para ser o que são:
razões saturadas
que se diluem aos quatro cantos.
Apenas sou capaz de saudá-las,
com este odor a cascalho que sempre me corta,
com a vontade ilógica de ficarmos sentados
defronte os lamentos dos outros
sem saber como tocar-lhes,
sem saber o que dizer aos seus vazios
que têm a medida e a exactidão dos nossos,
as mesmas mortes e os mesmos desastres
embora pintados com outra gama de tonalidades.
Tudo é um choque,
a vergonha de acreditar
que somos donos do nosso arbítrio.
Demoramos o tempo de uma subtracção
para que não fiquem as mãos tão inúteis
perante os filhos
que saberão, afinal, que não sabemos nós
como tudo sucedeu,
belíssimo que estava o momento
quando nos trasladámos para a vida.

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